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"1 watt por litro": de onde veio a regra e por que ela não serve

Pergunte em qualquer grupo qual aquecedor comprar e a resposta vem em segundos: 1 watt por litro. Se o lugar for frio, 2 watts por litro.

É a convenção mais consolidada do aquarismo brasileiro. Este site a publica — com um rótulo colado dizendo que é regra prática da comunidade de aquarismo, não é medição. Vale explicar o rótulo.

As próprias fontes discordam

Consultamos duas referências em português que publicam a regra. Um fabricante brasileiro de equipamento escreve, num texto de blog: “para aquecedor, por exemplo, a gente calcula 1W por litro, quando o local é quente, e 2W por litro quando é frio”. Um site de aquariologia escreve: “a regra geral é entre 1 a 1,5 watts por litro de água. Mas também depende da temperatura ambiente da divisão”.

Repare: 1, ou 1 a 1,5, ou 2. Nenhuma das duas informa a que temperatura ambiente a regra vale — e é essa, exatamente, a variável que decide tudo.

Quando duas fontes de uma convenção já discordam entre si por um fator de dois, você não está diante de uma medição. Está diante de um costume.

O que a física diz

Um aquecedor não aquece um volume. Ele repõe o que o vidro perde. Em regime, a potência necessária é:

P = U × A × ΔT

  • A é a área molhada de troca (as quatro paredes, a lâmina e o fundo);
  • ΔT é a diferença entre a temperatura da água e a do ar do cômodo;
  • U é a transmitância do conjunto vidro + ar.

O volume não aparece nessa equação. Ele decide quanto tempo o aquário leva para esfriar se faltar luz, não quanta potência ele precisa para se manter.

Isso tem consequências que a regra de bolso não capta:

Formato importa. Dois aquários de 100 litros, um cúbico e um comprido e raso, têm áreas de troca bem diferentes — e potências necessárias diferentes.

Tampa importa muito. A maior parte da perda de um aquário aberto é evaporação na superfície. Tampar reduz a potência necessária, e é o investimento de melhor retorno num aquário aquecido.

Clima importa mais que tudo. É aqui que a regra de bolso mais falha.

O número no Brasil

Tome o aquário de 60 cm mais comum, com água a 26 °C, e compare duas capitais.

Em São Paulo, com média anual do ar de 20,4 °C, o ΔT é de 5,6 °C, e a conta por perda de calor dá cerca de 28 W. A regra manda comprar 100.

Em Curitiba, com média de 17,8 °C, o ΔT é de 8,2 °C e a conta dá cerca de 41 W. A regra continua mandando comprar 100 — ou 200, se você considerar Curitiba “lugar frio”.

Em Belém, com média de 26,8 °C, a água a 26 °C está mais fria que o ar: não há perda a repor.

A calculadora deste site usa o seletor de região para pegar a média anual do ar da sua capital, direto das Normais Climatológicas do INMET onde elas existem, e do NASA POWER nas capitais que o INMET não cobre.

Superdimensionar é ruim?

Pouco. O termostato simplesmente liga menos, e a conta de luz não muda — porque o consumo é potência vezes tempo ligado, e um aquecedor grande fica ligado menos tempo.

Mas há dois efeitos reais. O aquecedor liga e desliga mais vezes, o que desgasta o termostato. E, se o termostato falhar preso ligado — que é o modo de falha clássico —, um aquecedor de 300 W cozinha um aquário de 60 litros muito mais rápido que um de 50 W.

A prática mais segura em aquário grande é dois aquecedores menores em vez de um grande: se um falhar desligado, o outro segura; se falhar ligado, ele sozinho aquece menos.

Use a média anual como ponto de partida, não como resposta

A média anual da capital é uma aproximação grosseira do ar do seu cômodo. Se o aquário fica num quarto que você aquece no inverno, o ΔT real é menor. Se fica numa varanda, é maior — e a noite de julho é o que dimensiona, não a média.

Pegue o número da conta, considere a noite mais fria do ano em vez da média, e adicione alguma folga. Você vai chegar num aquecedor menor que o da regra de bolso, e num que faz sentido.

Fazer essa conta com os seus números potência do aquecedor de aquário