1 mg/L de amônia pode ser inofensivo ou letal — quem decide é o pH
Dois aquaristas medem amônia no mesmo dia e os dois leem 1 mg/L. Um cria discos em água mole a pH 6,5. O outro cria ciclídeos do Malawi a pH 8,5.
O primeiro tem tempo para agir. O segundo tem uma emergência.
A leitura é a mesma. A situação não é — e a diferença é de um fator de 250.
Duas amônias, não uma
Em água, a amônia existe em duas formas em equilíbrio:
- NH₃, amônia livre. É uma molécula sem carga, atravessa a membrana da brânquia e é a que causa dano.
- NH₄⁺, íon amônio. Tem carga, não atravessa com facilidade, e é muito menos tóxico.
O teste do seu kit mede a soma das duas, porque separá-las exigiria equipamento de laboratório. O que decide a proporção entre elas é o pH, e em segundo lugar a temperatura.
A equação, e quem a mediu
A relação é:
fração de NH₃ = 1 / (1 + 10^(pKa − pH))
com pKa = 0,09018 + 2729,92/(273,2 + T em °C).
Ela é de Emerson, Russo, Lund e Thurston, publicada em 1975 no Journal of the Fisheries Research Board of Canada. É a equação que a agência ambiental americana usa para definir critério legal de amônia em água doce, e que o governo canadense usa para a diretriz dele.
O artigo original é pago, e o endereço dele recusa acesso automatizado. Então lemos a equação em três documentos oficiais que a transcrevem: os critérios de amônia da US EPA de 2013, o procedimento operacional do Florida DEP e as diretrizes do CCME canadense. Os três concordam no coeficiente. Onde eles divergem — e é uma divergência real, de 0,33% — está registrado na página de fontes.
O que a conta mostra
Para 1 mg/L de amônia total a 26 °C:
| pH | fração tóxica |
|---|---|
| 6,5 | 0,06% |
| 7,0 | 0,19% |
| 7,5 | 0,59% |
| 8,0 | 5,7% |
| 8,5 | 15% |
Cada ponto de pH multiplica a amônia livre por cerca de nove vezes e meia. Não por dez, como se costuma dizer — a curva já começa a saturar —, mas perto disso.
É por isso que um aquário de discos sobrevive tranquilo a uma leitura que estaria matando ciclídeos africanos no aquário do lado.
O que fazer com essa informação
Não baixe o pH para resolver. Reduz a toxicidade imediata, é verdade, mas não tira a amônia da água, e mexer no pH às pressas cria um segundo problema em cima do primeiro. Os peixes sentem a variação de pH tanto quanto sentem a amônia.
Troque água. É a única coisa que remove amônia de verdade, e a calculadora de troca parcial diz quanto trocar para chegar ao valor que você quer.
Pare de alimentar. Ração é a entrada de nitrogênio do sistema. Um ou dois dias sem comer não fazem mal a peixe adulto saudável; amônia faz.
Confira o que o seu kit mede. Alguns testes dão o resultado em N-NH₃, nitrogênio amoniacal, e não em NH₃. Os números são 1,22 vez menores para a mesma água. A calculadora tem um seletor para isso.